domingo, 23 de setembro de 2012

Como um dia de domingo...


Tenho uma má relação com as tardes de domingo. Quando era miúdo e os jogos de futebol nas Antas eram às 3 da tarde , acabava de comer à pressa a sobremesa do almoço em família para não perder o pontapé de saída e depois regressava a casa para assistir aos jogos de canasta dos adultos.
Em Lisboa, as tardes de domingo eram passadas a namorar ou estudar mas, quando fui para Inglaterra, comecei a encarar os domingos como um dia diferente, cheio de animação. Começava a manhã nos pubs ou em Park Lane a ver os jogos do meu Tottenham, as tardes eram muitas vezes passadas numa viagem de ida e volta a Lisboa ( o trabalho assim o exigia) e os domingos  terminavam, após o regresso, num jantar tardio com amigos, num restaurante turco da Queensway.
Quando iniciei a minha vida de andarilho, fui descobrindo que em cada cidade por onde passava o domingo tinha a sua particularidade. Finalmente, após regressar a Portugal, o cinema ao fim da tarde, no Outono/Inverno, seguido de um jantar no Saraiva’s passou a fazer parte da ementa de domingos que nunca começavam cedo, porque na véspera a noitada tinhas ido até às tantas. 
No Verão, estando por cá, recolho-me no Rochedo a contemplar o mar na companhia de um livro e música. Quando todos estão a regressar a casa, depois de uma banhada de sol, começa para mim o domingo. Normalmente com um jantar em local escolhido a preceito, em frente ao mar. O que se segue é sempre uma incógnita, mas raras vezes a noite acaba cedo.É óbvio que sendo uma pessoa pouco dada a rotinas, a descrição que acabo de fazer aplica-se a um domingo-padrão, mas não é religiosamente cumprida. Olhando para trás encontro, no entanto, um fio condutor nos meus domingos. É um dia em que gosto de estar sozinho, pelo menos até à noite.
Quando passo o fim de semana fora- o que felizmente faço com muita frequência- o meu maior prazer na manhã de domingo é, hoje em dia, assistir ao despertar da cidade- ou do local onde estiver. Gosto de deambular pelas ruas ainda quase desertas e de as ver encher-se aos poucos de gente. Depois, quando já estão suficientemente cheias, recolho-me num local sossegado a ler um livro, como qualquer coisa e depois procuro testemunhar a forma como as pessoas se entretêm nas tardes de domingo nas várias cidades do mundo. Já constatei que as diferenças não são muitas nos países ocidentais, embora na maioria dos países latinos, os domingos acabem de forma bastante mais animada do que é uso aqui em Portugal.
A prosa já vai longa e ainda não falei daquilo que motivou este post. O objectivo era apenas dizer que nos últimos domingos, pela manhã, armo-me em turista e desbravar Lisboa.
Escolho sempre itinerários diferentes e faço o percurso lentamente, assistindo ao despertar da cidade, onde a maioria dos caminhantes são turistas. Junto-me a eles na contemplação do Tejo,ou no simples deambular pelas ruas.
 Há umas semanas, desfrutando a manhã de onde se desprendia uma leve neblina anunciando amanhãs cinzentos, encontrei também um grupo de estudantes de um curso de fotografia, nas imediações do Príncipe Real. Traziam vestígios de uma noite bem regada no Bairro Alto, mas fotografavam Lisboa com desvelo. Também eles captavam a soberba luminosidade de Lisboa, quase tão embevecidos, como os  turistas que tomavam o pequeno almoço nas esplanadas. Acabei por me sentar numa. Tomei um café, comi um muffin e li um pouco. À minha volta ouvi falar várias línguas, mas nem uma palavra de português. Viajei um pouco pelo mundo sem sair de Lisboa. Quando regressei a casa, sentia-me como se tivesse regressado de uma qualquer capital europeia.
Raras vezes escrevo no blog ao domingo, (normalmente agendo os posts de fim de semana à sexta-feira) mas hoje, impulsionado pelas recordações de domingos passados, decidi quebrar a regra. Agora vou regressar à leitura e depois logo se vê. Talvez toque o telefone fixo ( desligo sempre o telemóvel ao domingo) e do lado de lá alguém me diga como vai acabar este domingo que já cheira a Outono. Sim, porque os domingos que em Lisboa acabam bem, são normalmente entre Outubro e Abril.

9 comentários:

  1. Essas manhãs de domingo por Lisboa parecem-me muito agradáveis. Já nem sei como é que aconteceu mas à custa do blogue os meus domingos têm quase sempre um passeio fotográfico. Nem sempre são passeios do dia... porque a agenda por vezes não deixa. Mas hoje até é um passeio acabadinho de fazer. O resto do dia há-de ser no relax...

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  2. Ora, como ainda estamos em Setembro, já estás a contar, com ou sem telefonema, que este domingo não acabe às mil maravilhas...
    Adorei esta excepção que fizeste ao quebrar o hábito de não escreveres no blog ao domingo.
    Foi bom ficar a conhecer um pouco mais de ti, Carlos.
    Desejo que este domingo de Setembro, com cheiro a terra molhada, tenha um óptimo, delicioso e inesquecível fim, para ti!!
    Beijinhos.

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  3. Caro Carlos : Tardes de domingo como as de outrora não existem mais, com futebol ás 3 h. estádio cheio de gente em pé e ambiente escaldante !
    Veja se confere com “o seu tempo” este Porto / Benfica! :))

    http://coisas-da-fonte.blogspot.pt/2011/09/uma-tarde-de-domingo-1-parte.html

    http://coisas-da-fonte.blogspot.pt/2011/09/uma-tarde-de-domingo-2parte.html

    Bom final de Domingo ! :))
    .

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  4. Muito prazer em conhecê-lo, Carlos! ... um pouco mais . : )

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  5. Talvez o telefone toque e do lado de lá uma voz feminina diga...

    Eu preciso te falar
    Te encontrar de qualquer jeito
    Prá sentar e conversar
    Depois andar
    De encontro ao vento...

    Beijos.

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  6. Se o telefone não tocou, nem a voz feminina apareceu, espero que a relação com a tarde não tenha sido má.
    Por cá, choveu. E, como eu já tinha saudades da chuva!

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  7. Passeio por Lisboa, sempre que posso, aos domingos. Ou vou ao cinema, fico a ver televisão ou leio. Hoje foi dia de leitura... :)

    ps - nunca, mas nunca mesmo, passei uma tarde a ver a bola... a única vez que entrei no estádio do Glorioso, foi para ir ao restaurante! (que acho que já mudou de gerência, mas realmente não prestava para nada)

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  8. Ontem li esta sua crónica confidente sobre os seus domingos, a qual agravou ainda mais a minha depressão, ou antes, a minha tristeza. O meu amigo conduziu-me ao meu tempo no Porto e em Londres.
    Não pare de escrever estas encantadoras crónicas, Carlos, mesmo quando elas me deixam a morrer de saudade.

    Seria uma grande honra para mim que o Carlos me "roubasse" alguma coisa, mas não há "roubo" em "1957: Os Nove de Little Rock", porque é um facto histórico.

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  9. Também aproveito as manhãs de Domingo para passear bem cedo, adoro ser a "primeira" na rua....tenho uma missão: descobrir onde posso comer a melhor torrada!
    As tardes passo-as em casa não gosto de sair mas adoro jantar fora e esquecer que tenho cozinha :)

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