terça-feira, 24 de setembro de 2013

Derniers Baisers (2): Mixed feellings

                                             Ao segundo 52 vão perceber porque escolhi esta canção para ilustrar este post

( Continuado daqui)
Acelero em direcção a Ofir,  onde ficaram enterrados alguns amores de Verão, nos longínquos anos 60. O vento é agora mais forte e mais frio. Embrenho-me pelo pinhal em direcção à casa onde fui tão feliz, mas acabaria por ser o início de uma estória de muitas tristezas e desgraças.
Os meus sentimentos dividem-se. Por um lado, recordo os dias felizes que vivi naquela praia; por outro, lembro o dia de angústia e sofrimento de há quase 40 anos, quando naquele local perdeu a vida um dos meus irmãos.
O cenário é agora muito diferente daquele dos anos 60. O  espaço é hoje em dia reserva natural e as pessoas parecem interessadas em preservar aquele recanto do litoral minhoto que permanece um paraíso para muitos escondido. Deixo a casa nas minhas costas e sigo para o Hotel Pinhal, cenário de casamentos, onde desenferujava o alemão com a minha amiga Petra W. Está encerrado. Estugo o passo em direcção ao mar. Lá permanece o Hotel Ofir que me lembra tardes de bowling, uma discoteca famosa e a final de  66 do mundial de futebol, onde torci furiosamente pelos alemães, mas vi os ingleses vencerem 4-2. 
Já não há dunas mas, em frente ao mar, a ganância de alguns, conluiada com interesses políticos, ergueu três torres monstruosas que destruiram a paisagem e- certamente-  retiraram muita paz nos meses de Verão.
 Sem querer, deixo-me invadir pela força nostálgica do Outono. Olho em volta. É de praias quase desertas que eu gosto mas, neste momento, preferia que estivesse cheia de gente. Tenho sentimentos contraditórios em relação ao Outono. Gosto dos tons acobreados do meu Douro, da luminosidade dos seus dias de sol. Não gosto do anúncio de fim de ciclo, que culminará no Inverno. Não gosto dos dias chuvosos em que anseio a noite. Já não sinto tristeza. É mais uma sensação de amargura, de quem se despede de um amigo, sem ter a certeza se o vai voltar a ver.
Já passa das seis. O sol acelera em direcção ao horizonte, mas não é ali que me quero despedir dele hoje.  Ainda tenho mais de uma hora. Meto-me no carro, sigo pela marginal para a Apúlia  e paro na praia de Santo André, junto à pousada onde também fui muito feliz. Resisto a subir ao monte de S. Félix para de lá desfrutar o pôr do sol. Continuo pela estrada  marginal. Passo com um aceno por A Ver o Mar, Póvoa de Varzim, Caxinas e Vila do Conde. Já não há o Bom Doce dos docinhos conventuais, mas existe um sucedâneo que não me deixa saudades.  Seguem-se as praias de Árvore, Azurara e Mindelo Finalmente, Labruge. É ali que fico a ver o pôr do sol de tons vermelho-alaranjados. Acompanhado por um Portotonic.
Quando o sol desaparece no horizonte, regresso ao carro. Sigo para o Porto, que devia ser o fim da viagem para a Baixinha. Ela quer continuar até Lisboa. Pela costa. Seja feita a sua vontade!
(Continua)

6 comentários:

  1. Um texto muito profundo, de ficar de lágrimas que teimam em cair, uma vida de momentos felizes, mas também de muita tristeza, infelizmente assim é a vida feita.
    vou aguardar.
    Até lá boa continuação.

    fico-me com s saudades que tenho da Foz do Minho em Caminha, de Vila Nova de Cerveira, de Ponte de Lima e de todo o Norte principalmente o Minho por onde andei alguns anos, Orfir uma pousada maravilhosa onde estivemos hospedados, enfim, tudo termina.

    beijinho e ma flor

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  2. Repito o que comentei no meu blogue, Carlos - não é o País, são algumas pessoas que são uma boa m$%^&.
    O País é LINDO!

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  3. São memórias, o que mais gosto de lhe ler.
    beijinhos

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  4. Uma viagem que foi um "abrir do baú das memórias"...felizes e sofridas.

    Assim é a vida!

    Beijinhos.

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  5. Lembrar o passado é abrir a caixa de Pandora...há do bom e do mau...
    Mas até o que foi bom me enche os olhos de lágrimas!
    Ando assim para lá do melancólico...
    Gostei do que li!

    Abraço solidário neste cair das folhas

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  6. Carlos, Tem tido uma vida muito rica de experiências, lindas viagens, encontros e desencontros, grandes amores e claro que o reverso da medalha é duro...
    Parece-me que estamos quase todos de acordo gostamos muito de ler as suas memórias.
    xx

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