terça-feira, 16 de maio de 2017

Berlim, Alexanderplatz (2)



Estivesse eu a viver na Europa em Novembro de 1989 e teria corrido para Berlim a tempo de ver o desmoronar do muro que dividia a Europa. Teria tirado algumas fotos, improvisado a selfie possível naquela época, com a Yashica recém comprada em Hong Kong e atravessaria o muro  pela porta de Brandenburgo. Depois desceria a vetusta avenida  Unter den Linden e precipitar-me-ia para Alexanderplatz, a praça de Berlim que não me saía da cabeça, desde que lera o belíssimo romance de Alfred Doblin.
Por essa época, porém, eu vivia em Macau e o distanciamento, em vez de me aguçar o desejo de correr para Berlim, permitiu-me racionalizar o que estava a acontecer a 13 mil quilómetros de distância.

Enquanto o muro se desmoronava, na madrugada e manhã berlinense, eu estava em Macau ( 7 horas mais tarde) em casa de um casal amigo  e tracei um cenário do que  acreditava poder suceder no prazo de uma ou duas décadas à Europa e ao mundo.  Só o Valmiki, a Ana e mais dois ou três amigos que estavam presentes e estupefactos perante a minha visão catastrofista, poderão testemunhar  tudo aquilo que eu disse nessa tarde e noite ( e  mais tarde escrevi parcialmente nas páginas da Tribuna de Macau) e confirmar que as minhas previsões infelizmente bateram certas.
Não sou adivinho, nem fui visitado por  uma entidade divina que me proporcionou uma visão do futuro . Bastou-me  trabalhar toda a informação armazenada  no meu cérebro ao longo de décadas sobre as divergências  entre o mundo ocidental e a Europa de Leste, para perceber  em alguns minutos, que o mundo acabava de assistir à vitória da Internacional Consumista, sobre a Internacional Comunista.  
A queda do muro de Berlim  não foi  apenas o fim de uma barreira física entre Leste e Ocidente. Foi  o desmoronamento do império soviético, à época a última barreira à hegemonização do “ american way of life” à escala global. Foi  o início da guerra pelo pensamento único, uma espécie de Cruzadas  do século XX, onde os Cruzados tinham por missão impor a democracia, como uma Nova Fé, mesmo que essa não fosse a vontade dos povos “libertados” ( A Primavera Árabe foi apenas um exemplo).

Naquela tarde pareceu-me muito claro que mais cedo do que tarde iríamos  viver numa Europa de pensamento único,  onde a informação discretamente emanada da Casa Branca seria “a verdade” ( menos de dois anos depois a primeira guerra do Iraque seria o primeiro sinal) a economia  e os mercados financeiros se globalizariam com base nas teorias liberais, dando azo ao triunfo da hegemonia do indivíduo ( que então chamei sociedade do Eu Lda)   sobre os valores colectivos.  
Lembro-me de o Valmiki, militante do PCP,  incrédulo com a minha “dissertação” me ter dito nessa tarde:
“Espero que estejas enganado, porque se isso tudo que dizes se concretizasse, iríamos regressar ao fascismo”.
Pois é, meu caro Valmiki.  Ambos tínhamos razão, mas afinal tu ainda eras mais pessimista do que eu. Só que não sabias!
Aqui chegado, acredito que a maioria dos leitores já tenha abandonado a leitura do post e que os resistentes estejam a perguntar-se “ a que propósito vem isto?”.
Na verdade serve apenas para justificar a razão por que só este ano fui a Alexanderplatz. Facto que vos pode parecer ainda mais estranho, se vos disser que já tinha estado duas vezes em Berlim, em trabalho, mas nunca tinha ido além das portas de Brandenburgo. 

Ao longo dos anos – e à medida que era mais visível o triunfo do pensamento único e o domínio da economia sobre a política- o meu interesse em voltar a Berlim e  visitar Alexanderplatz foi esmorecendo.
Na verdade, cresci  com um sentimento anti-alemão ( nada tem a ver com o povo, mas sim com o regime) fundamentado em factos indesmentíveis: a Alemanha provocou duas guerras mundiais. Depois da queda do muro de Berlim, percebi que seria uma questão de tempo até desencadear a terceira. 
Continuo a não ter dúvidas de que isso irá acontecer, mas senti que tinha de ir a Berlim antes de morrer, nem que fosse apenas para guardar na memória uma imagem de Alexanderplatz.
E foi assim que , quase dois anos passados sobre a descoberta da minha doença, decidi ir a Berlim. Apenas tinha uma certeza: queria ficar hospedado num hotel em Alexanderplatz. E assim foi.
Inicialmente tinha planeado ficar apenas 4 ou 5 dias e dar um salto a Hamburgo, Dresden e Leipzig.

No dia em que cheguei ( um domingo), fui passear por Karl Marx Allee e senti que poderia viver naquela zona ou em Prenzlauerberg o resto da vida. De descoberta em descoberta, de memória em memória, entre encantamentos e decepções fui ficando e, ao fim dos  11 dias, apenas tinha  saído de Berlim  uma vez, para visitar Potsdam. 
(Continua)

4 comentários:

  1. Uma era que agora tem um novo episódio com a China a disputar a hegemonia americana.

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  2. O MEU SONHO ESTÁ PRESTES A REALIZAR-SE, a reconstrução da rota da seda destruída pelos ingleses quando invadiram a china O IMPÉRIO britanico ESTÁ CADUCO E Segue-se o império americano. QUEM DESENVOLVEU A GUERRA MUNDIAL FORAM OS INGLESES, NÃO AGUENTAVAM O DESENO0LVIMENTO INDUSTRIAL ALEMÃO.

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    1. Este comentário é música para o meu coração.

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  3. Berlim é uma cidade, onde encontramos de tudo: encantamentos e decepções. Uma cidade vigorosa, moderna e sobretudo TOLERANTE.

    Visitou a campa do Bertolt Brecht?

    Grata pela a apresentação de Berlim a meu gosto, abraço o Carlos com muita amizade.

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