terça-feira, 9 de maio de 2017

Berlim, Alexanderplatz



Nota prévia: com excepção da Argentina, não tenho por hábito escrever sobre as minhas viagens. Às vezes um apontamento ou outro e nada mais.
Abro uma excepção a Berlim, pela estima que me merece a boa amiga Teresa, a quem dedico estes posts 

Lembro-me bem da primeira vez que estive em Berlim. Era uma tarde de setembro de 1963 pesada como chumbo. À medida que íamos adentrando a cidade, as nuvens  tornavam-se mais carregadas e ameaçadoras, deixando antever que a qualquer momento rebentariam num vale de lágrimas. 
Aconteceu quando estávamos mesmo o chegar ao hotel, pelo que atribuímos o mau humor e os maus modos do jovem que veio ao carro ajudar na tarefa de carregar as malas, a uma zanga momentânea com S. Pedro, que não nos livrou de uma boa molha.
Erro de análise colectivo. 
No restaurante ( biergarten) que o meu cunhado escolheu para jantar fomos igualmente mal recebidos e o ambiente contrastava, de forma quase deprimente, com a alegria que encontráramos ( e fôramos convidados a partilhar) noites antes em Munique. 
Lembro-me de o meu cunhado, durante o jantar, ter justificado aquele mau humor com as medidas impostas à Alemanha no pós guerra e ter aludido  a um muro mandado construir dois anos antes pelos comunistas. Constatei que falara em voz baixa, quase em surdina, mas como já nessa altura sabia que se devia  falar sempre baixo nos cafés, restaurantes e outros locais públicos, para evitar  os esbirros da PIDE, acreditei que na Alemanha se passaria o mesmo e não dei importância.  Fiquei sim a matutar como é que um muro podia deixar as pessoas tão mal dispostas. 
Eu vivia nas Antas, paredes meias com os Cepeda, uma família proprietária de metade dos  terrenos  do bairro que também mandara erguer um alto muro à volta da casa  para que ninguém pudesse perscrutar o que lá se passava. Claro que aquele muro amarelo com rebordo branco ( que ainda há um ano existia) me despertava para o devaneio e um dia, incapaz de conter a curiosidade, aproveitei a ausência da minha Mãe e subi ao telhado de minha casa com um primo para tentar ver como era a vida em casa dos Cepeda.
Debalde. A única coisa que retirei dessa aventura foi um severo castigo. A senhora Ana, dedicada cozinheira e sempre zelosa na protecção do “seu menino” entrou em pânico quando me viu no telhado e começou aos gritos no jardim despertando a atenção da vizinhança que por acaso era toda família e uma tia minha, muito devota, assomou à janela. Logo que viu o espectáculo começou a pedir a ajuda de todos os santos para que nos fizessem descer, mas tivemos mesmo de descer pelos nossos próprios meios e sem conseguir descobrir o que se passava para além do muro da casa dos Cepeda.  Apesar de devota, a minha tia não foi nada clemente e contou tudo à minha Mãe assim que ela chegou a casa e eu fui proibido de praticar as minhas habilidades futebolísticas no quintal durante pelo menos uma semana.
(Desculpem os leitores este desvio. Esclareço  que em 1963 tinha apenas 13 anos, ainda não conhecia a minha amiga Petra W., sabia pouco de História e nada sobre o pós guerra e as intrincadas negociações de paz que se lhe sucederam e culminaram na divisão da Alemanha, primeiro, e da cidade de Berlim depois)
 Regressemos então a Berlim. 
Estive muito atento às explicações do meu cunhado sobre o mau humor dos berlinenses e não me manifestei durante o jantar mas, logo que chegámos ao hotel, assim que entrámos no quarto, desabafei com o meu irmão:
- Como é que o O. pode dizer que a culpa é do muro? Que disparate! Nós também temos um muro em frente a casa e não andamos mal humorados como eles.
O meu irmão olhou-me com ar de quem está a ouvir um imbecil ( e se calhar tinha razão), explicou-me que  o muro separava a cidade em dois e por isso havia muitas famílias que tinham ficado separadas de um dia para o outro. Aí chegados, fiquei esclarecido.  E estarrecido. O que seria de mim se construíssem um muro no Porto e eu deixasse de poder ver o mar, ou passear da Ribeira até à Foz? Esses comunistas deviam ser uns bandidos e a partir desse dia passaria a odiá-los.
Depois  deu-me uma lição de História que me deixou muito impressionado e foi determinante para eu me ter apaixonado pelo estudo da História Universal, devorando livros que me abrissem os olhos para o mundo.
(Não demorei muito tempo a perceber que as histórias do meu irmão sobre os comunistas eram manifestamente exageradas, fiz as pazes com Marx, Engels e Lenine e concluí, sem grande esforço, que os livros de História que nos impingiam no liceu só contavam uma versão). 
No dia seguinte fomos ver Berlim. O tempo continuava cinzento e caía uma chuva miudinha. Lá vi o muro, percebi que a cidade estava dividida em quatro e estive num sítio  ( presumo que fosse o Check Point Charlie) onde estavam soldados americanos que não nos deixavam passar.
As imagens que recordo de Berlim são estas. 







Uma cidade cinzenta e depressiva, um povo amargo, antipático e avesso a falar outra língua que não a sua.
Abandonei Berlim com um  suspiro de alívio e prometi que não voltaria lá.  Voltei várias vezes à Alemanha, nomeadamente a Hannover, Munique, Frankfurt e Dusseldorf, mas nunca voltei a Berlim antes da queda do muro. 
No entanto, há muito tempo que a leitura de um livro me deixara com vontade de lá ir.

( Continua)

4 comentários:

  1. Gostei muito de Berlim. Os berlinenses não me agradaram. Mas como estava para ver a cidade, fiz grau zero do pessoal. E o resto correu bem.

    ResponderEliminar
  2. Gostei das imagens e de ler este retalho da sua vida, espero que ainda possa lá voltar se for esse o seu desejo.

    Beijinho Carlos

    ResponderEliminar
  3. Eu tenho muita vontade de lá ir.
    Será um destes anos a caminho de Portugal de certeza.

    ResponderEliminar
  4. Agradeço enternecida por me dedicar está interessante crónica sobre a capital alemã.

    Conheço bem Berlim e a sua história bizarra, porque a cidade estava realmente dividida em quatro, sendo a culpa do Adolf e, nunca, do Marx ou do Engels.

    Adorei o "desvio". Felizmente, que a minha titi Alda nunca foi devota, nem dada a queixinhas.

    Um beijinho muito grato da amiga, que devido às eleições na NRW, anda um pouco afastada da blogosfera.

    ResponderEliminar